Artigo por Mário César Camargo - Diretor do Rotary International: Rotary e Covid-19: Crise ou Oportunidade?
“Nunca desperdice uma boa crise” - Winston Churchill.
É o momento de fazer um balanço da gestão até ser atingida pelo tsunami do covid-19, até como referência histórica. Tenho minhas dúvidas sobre afirmações categóricas de que o mundo não será o mesmo após o fim da pandemia. O discurso era idêntico após o 11 de setembro de 2001, as viagens tornaram-se mais burocratizadas, os mecanismos de monitoramento “big brother” com reconhecimento facial disseminam-se pelo mundo, mas vida que segue. O choque da pandemia mudará o ambiente de negócios, haverá certa hesitação de contato físico no início, empresas quebrarão, o ambiente virtual ganhará milhões de neófitos, prioridades governamentais serão reavaliadas, líderes emergirão e submergirão, mas o ser humano continuará sua saga. Esperançosamente, mais solidário, mais conectado, mais ativo na sua comunidade. E o Rotary lucrará com esse movimento, desde que projetemos a imagem de instituição voltada ao melhoramento do ser humano, estampado no lema “Dar de si antes de pensar em si”. Uma entidade com gente de ação, atrativa para futuros rotarianos.
Vamos lá, aos números. Relatório de gestão pode ser enfadonho, numérico, pouco inspirador, mas inevitável que mensuremos nossa trajetória até abril de 2020, para informar aos rotarianos da América do Sul.
- O que o Rotary está fazendo para combater a covid-19 em nível mundial? A Fundação Rotária aprovou até 15 de maio US$ 13,017 milhões em 157 projetos de subsídio global. Solicitações de subsídios de auxílio a desastre somam 300 no mundo, tendo 193 sido aprovadas, num total de US$ 4,807 milhões. Para os 45 distritos das zonas 23 e 24, Brasil e América do Sul espanhola, aprovaram-se 27 projetos, somando US$ 675 mil, fruto da agilidade dos governadores do continente ao requisitar esses fundos, alocados para quem primeiro chega;
- Qual o impacto da crise na captação de recursos da ABTRF/TRF no Brasil? Até 30 de abril, nenhum. O volume captado no período no ano 18-19 foi US$ 2,370 milhões, no ano atual US$ 2,404 milhões. Deve-se considerar que o dólar teve valorização de 42% no período, o que significa que a arrecadação cresceu na mesma proporção em reais, um feito a ser reconhecido;
- Como está o quadro associativo em nível mundial? Também para o limite de 30 de abril, o número de rotarianos cresceu 27.933 no mundo, o que poderia ser considerado alvissareiro. Acontece que, se comparado a abril de 2019, estamos 9.154 abaixo, o que vem ocorrendo há dois anos, uma tendência perigosa;
- Como está o quadro associativo no Brasil? 20 distritos ganharam sócios em relação a 1 de julho de 2019, mas 11 perderam, num crescimento líquido de pouco mais de 600 companheiros. Se levado em conta que o acréscimo chegará a mais de 2.000 em outubro último, é preocupante. Ainda mais com a eclosão da pandemia, com impacto ainda incerto no quadro associativo;
- O Rotary perderá membros em nível mundial? É a pergunta de 1 milhão de dólares, ninguém sabe, tendo em vista o ineditismo da crise, pelo menos nos últimos cem anos, desde a gripe espanhola de 1918-1920. Mas o Rotary tem estatísticas de 115 anos, e somente numa crise houve uma queda expressiva do quadro social, de 5,6% , nos anos 1932 e 1933, sequentes à depressão americana. O estatístico do Rotary projeta, com 95% de margem de acerto, que pode haver queda ou aumento do quadro de 1,8% nos próximos quatro anos. A ver;
- Haverá impacto na captação de recursos para a Polio? Ainda há tempo para reagir, mas o investimento em projetos da covid-19, no total de US$ 17,8 milhões mencionados acima, solapou as reservas que poderiam ser destinadas à Polio, para manter a equiparação de 2 para 1 com a Fundação Gates. Hoje, dia 19 de maio, faltam ainda US$ 16 milhões para chegar aos US$ 50 milhões do compromisso, e não podemos esquecer que para cada dólar do rotariano, faltarão dois dólares do lado Gates. Precisamos reagir, e rápido, faltando seis semanas para o término do ano rotário.
O Rotary atravessou mais de um século de desafios, é nossa marca de nascença. Depressão, gripe espanhola, crise do petróleo, duas grandes guerras, que geraram frutos com digital do Rotary, como a UNESCO e a ONU. Tornamo-nos maiores diante da crise, afinal somos marinheiros de mares revoltos, não de piscina. Seguindo o pensamento do primeiro ministro inglês, que conduziu a Inglaterra no seu período mais turbulento, não desperdiçaremos uma boa crise. Sairemos dela maiores e mais fortes. Lutaremos em todas as “lives” possíveis para manter nossa equipe motivada, conectada, abrindo oportunidades. Até nos encontrarmos novamente para um forte abraço rotário. Sem covid-19.






